Pesquisa acadêmica · FEA-RP / USP · 2026

Para onde vai o imposto quando ele deixa de nascer na fábrica?

A Reforma Tributária mudou a regra do jogo: o imposto sobre o consumo deixará de pertencer à cidade que produz e passará a pertencer à cidade que consome. Este estudo mede, com matemática e 10.000 simulações, o que isso significa para um pequeno município industrial do interior paulista.

Samuel Pulcini dos SantosAutor · Contabilidade FEA-RP/USP
Prof. Dr. Sílvio Hiroshi NakaoOrientador
Role para descer pela história
Capítulo 01

A maior mudança tributária em 60 anos

A Emenda Constitucional nº 132/2023 extinguiu o ISS (municipal) e o ICMS (estadual) e criou em seu lugar o IBS — Imposto sobre Bens e Serviços. Parece só uma troca de siglas. Não é. O que muda de verdade é o endereço para onde o dinheiro vai.

Modelo atual · até 2032

Princípio da Origem

Cidade que produz
R$ R$ R$
Prefeitura local

O imposto fica onde está a fábrica ou o prestador. Por décadas, isso alimentou a "guerra fiscal": cidades disputando sedes de empresas para engordar a arrecadação.

vira
Modelo novo · IBS

Princípio do Destino

Cidade que produz
R$ R$ R$
Cidade que consome

O imposto vai para onde mora o consumidor final. Quem produz muito mas consome pouco perde; quem consome muito mas produz pouco ganha.

Em uma frase: hoje o imposto nasce na chaminé da fábrica. A partir da reforma, ele nasce no carrinho de compras. E a transição completa vai durar até 2078 — meio século de adaptação.

Capítulo 02

Um gigante industrial de 17 mil habitantes

Para testar o modelo, o estudo escolheu um caso-limite: Pradópolis-SP, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Uma cidade pequena que abriga uma das maiores usinas sucroenergéticas do mundo — e que por isso tem tudo a perder na mudança de regra.

0 habitantes IBGE, 2025
R$ 0 bi de PIB anual acima da média regional
R$ 0 de PIB per capita parece riqueza — mas é produção, não renda
0% dos empregos formais na indústria-âncora 5.408 de 9.227 vínculos (RAIS/2024)

O território do estudo

Explore o mapa real da região: Pradópolis e os polos que atraem o consumo dos seus moradores. Para navegar, use dois dedos no celular ou Ctrl + scroll no computador.

A dualidade: a cidade produz como gigante, mas consome como pequena

O que a cidade produz por ano (PIB)
R$ 1,10 bilhão
O que os moradores têm para gastar (salários + benefícios)
R$ 621 milhões

A renda disponível dos moradores — R$ 513,7 mi em salários, R$ 100,0 mi em aposentadorias do INSS e R$ 7,5 mi do Bolsa Família — é a nova base tributável sob o princípio do destino. O problema: ela é bem menor do que a riqueza industrial que sustenta a arrecadação hoje.

Capítulo 03

Quase tudo depende de uma única chaminé

Ao abrir a "caixa-preta" da arrecadação de 2024, contribuinte por contribuinte, o estudo encontrou um grau extremo de concentração — e classificou cada real entre o que fica e o que migra com a reforma.

De onde vem o valor que gera o repasse de ICMS (VAF 2024)

Usina sucroenergética 69,7%
Logística 13,8%
Outros
Indústria sucroenergética (matriz) Mesmo grupo (filiais, energia, cogeração) — 5,6% Ferrovias e transportadoras que escoam a produção Demais setores Supermercados e varejo local: menos de 1%

Somando a usina, suas subsidiárias e a logística que existe para escoar sua produção, o complexo exportador responde por ≈ 89% de todo o valor adicionado do município.

ISS · serviços
79,5%migra
migra para outras cidades fica em Pradópolis

Dos R$ 2,57 mi pagos pelos 20 maiores contribuintes de ISS, R$ 2,05 mi vêm de serviços B2B para a usina (manutenção, caldeiraria, TI). Com o IBS, esse imposto viaja junto com o açúcar e o etanol — e é recolhido na cidade do consumidor final.

ICMS · cota-parte
97,6%migra
migra para outras cidades fica em Pradópolis

Na carteira dos 20 maiores geradores de VAF, R$ 22,6 mi de R$ 23,2 mi estão ancorados em produção exportadora e logística. O consumo local (energia residencial, telefonia, supermercados) sustenta apenas 2,4%.

Detalhe metodológico: a classificação não foi feita "no automático" pelo CNAE. O autor ligou e escreveu para cada grande contribuinte, confirmando se seus clientes estão dentro ou fora da cidade — um levantamento primário que dá lastro empírico ao modelo.

Capítulo 04

O termômetro do risco: o IVT

Primeiro artefato do estudo, o Índice de Vulnerabilidade na Transição responde a uma pergunta simples: que fração da receita atual do município está ancorada no modelo que vai deixar de existir?

IVT = ISSdest + ICMSdest Ratual
  • Receita em risco — ISS de serviços B2B (R$ 2,05 mi) + cota-parte de ICMS de origem produtiva (R$ 22,61 mi) = R$ 24,66 mi
  • Receita atual total — todo o ISS + cota-parte do ICMS em 2024 = R$ 40,03 mi
0% IVT de Pradópolis
< 30% Polo consumidor
tende a ganhar
30–50% Zona de transição
risco moderado
> 50% Polo produtor
alta vulnerabilidade

Mais de 61% de toda a receita de consumo de Pradópolis depende de onde a produção acontece — não de onde os moradores compram. São R$ 24,66 milhões por ano com passagem comprada para outras cidades.

Capítulo 05

A gravidade do consumo

Se o imposto agora segue o consumidor, a pergunta-chave vira: onde os moradores de Pradópolis fazem compras? Para responder, o estudo usou um modelo clássico de geografia econômica — o Modelo Gravitacional de Huff (1964) — em que cidades grandes atraem consumidores como planetas atraem satélites.

30 km 40 km Pradópolis centro local · retém 30% Sertãozinho polo industrial e comercial Ribeirão Preto Capital Regional A (REGIC/IBGE)
70%das compras "vazam" para os polos vizinhos
30%ficam no comércio de Pradópolis (θret)

Daí nasce o coeficiente k — o quanto de cada real vira imposto local

c = 0,65 De cada R$ 1 de renda, as famílias gastam 65% em bens e serviços tributáveis pelo IBS (POF/IBGE, Sudeste)
×
θret = 0,30 Só 30% dessas compras acontecem dentro da cidade (Modelo de Huff)
=
k = 0,195 Apenas 19,5% da renda gera arrecadação para o próprio município
R$ 19,50 ficam
R$ 80,50 escapam (poupança, isenções e compras fora)

É o destino de cada R$ 100 de renda gerada em Pradópolis sob a nova regra.

Capítulo 06

A conta final: a EPL

O segundo artefato, a Estimativa de Perda Líquida, coloca tudo na balança: de um lado, o que a cidade perde com a migração da base produtiva; do outro, o que ela ganha tributando o consumo dos próprios moradores.

sai R$ 24,66 mi receita de origem que migra para outras cidades
entra R$ 21,44 mi IBS sobre o consumo local
(R$ 621,2 mi × k 0,195 × alíquota 17,7%)
=
R$ 3,21 milhões de déficit por ano no cenário-base da alíquota do IBS

E se a alíquota do IBS mudar? Três cenários:

14,0% Cenário conservador − R$ 7,70 mi déficit anual

Com alíquota baixa, o consumo local rende pouco e o rombo quase dobra.

cenário-base 17,7% Alíquota de referência do IBS − R$ 3,21 mi déficit anual

A estimativa central: a cidade não se sustenta sozinha e depende do Seguro-Receita.

26,5% Referencial IVA Dual (IBS+CBS) + R$ 7,45 mi superávit teórico

Apenas informativo: a CBS é federal e não entra no caixa municipal.

O modelo é deliberadamente pessimista. Ele ignora rendas de capital (lucros, MEI, arrendamentos rurais — o chamado EOB), porque não há dado público municipal confiável. Se essa renda invisível equivaler a só 15% da base atual, o déficit zera. Ou seja: os números são um teto de perda, não uma sentença.

Capítulo 07

10.000 futuros de uma vez

Ninguém sabe a alíquota final do IBS, nem quanto o comércio local vai crescer. Em vez de chutar um número, o estudo roda uma Simulação de Monte Carlo: sorteia 10.000 combinações possíveis de alíquota, retenção, massa salarial e benefícios — e observa a distribuição dos resultados. Você está vendo essa simulação rodar agora, ao vivo, no seu navegador.

0 / 10.000 cenários simulados
← superávit (a cidade ganha)déficit (a cidade perde) →
dos futuros terminam em superávit
terminam em déficit
resultado médio esperado (EPL média)
intervalo de 90% de confiança (P5 a P95)

A moeda está no ar: 56,6% de chance de a cidade se sustentar sozinha, 43,4% de risco de déficit. O futuro fiscal de Pradópolis não é um número — é uma distribuição de probabilidades. E é exatamente isso que um gestor precisa enxergar para se planejar.

Capítulo 08

O ponto de virada está na mão da cidade

A descoberta mais poderosa do estudo: a variável que decide o jogo não é a alíquota (decidida em Brasília), e sim a retenção do varejo local — quanto do consumo dos moradores acontece dentro da cidade. E essa, a prefeitura pode influenciar. Arraste o controle e encontre o equilíbrio:

30%
hoje: 30% equilíbrio: 34,5%

Fomentar o varejo presencial

Atrair âncoras comerciais e serviços que capturem as compras hoje drenadas por Ribeirão Preto e Sertãozinho. Subir θret de 30% para 40% transforma o déficit de R$ 3,21 mi em superávit de R$ 3,93 mi.

CPF na nota, endereço certo

No IBS, o CEP do comprador define para onde vai o imposto. Cada morador com domicílio fiscal correto é receita capturada; cada cadastro errado é dinheiro indo para a cidade vizinha.

Diversificar com logística

Centros de distribuição têm fato gerador ancorado no local físico de expedição. A ferrovia que hoje só escoa açúcar pode ancorar uma nova base tributária menos dependente de um único setor.

O colchão de meio século: o Seguro-Receita

2029–2032 Calibração

100% da média histórica garantida

2033–2078 Convergência

a garantia derrete 1/45 ao ano até zerar

2078+ Destino pleno

a cidade vive do que retém

O modelo quantifica exatamente o hiato que esse colchão precisará cobrir — e por quanto tempo. O mundo já viveu isso: Mumbai perdeu o imposto Octroi (35% da receita própria) na reforma indiana de 2017 e mergulhou em crise de liquidez; o Canadá, com bases harmonizadas e cooperação federativa, fez a transição funcionar. O Brasil escolhe agora qual história repetir.

Conclusão

De percepção vaga a meta mensurável

O estudo entrega o que não existia: uma ferramenta científica, replicável em 5 etapas com dados públicos, para qualquer município produtor medir seu risco antes da transição. "Precisamos fortalecer o comércio local" deixou de ser intuição — virou um número: θret ≥ 34,5%.

IVTo termômetro da vulnerabilidade
EPLa régua do impacto em reais
Protocolo5 etapas para replicar em qualquer cidade
Experimente o simulador interativo ajuste alíquotas, retenção e renda — e rode seu próprio Monte Carlo
Referências Fontes de dados públicos
  • Prefeitura de Pradópolisarrecadação municipal de ISS e ICMS — ano-base 2024
  • SEFAZ-SPValor Adicionado Fiscal (VAF) e cota-parte do ICMS
  • IBGEpopulação estimada e PIB dos Municípios (Pradópolis-SP)
  • POF/IBGEPesquisa de Orçamentos Familiares — propensão ao consumo tributável (Sudeste)
  • RAIS / MTE (2024)vínculos formais de emprego e massa salarial
  • INSS · Bolsa Famíliabenefícios previdenciários e sociais transferidos ao município
Quem está por trás do estudo